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Tiradentes e o mito do heroísmo

  • RP História UNEB
  • 21 de abr. de 2021
  • 4 min de leitura

Olá, caros leitores! Hoje, nesse feriado de 21 de abril, falaremos de Tiradentes e a construção do mito do heroísmo sobre esse personagem histórico.

Pintura de óleo sobre tela de Pedro Américo, de 1893.

Em 21 de abril de 1792, quando o Brasil era colônia portuguesa, morria Joaquim José da Silva Xavier, o alferes Tiradentes, data que se tornou feriado nacional em 1890, após a proclamação da república. Mas devido às informações contraditórias sobre o assunto, até os dias de hoje surgem dúvidas a respeito da importância desse personagem na história brasileira, sendo importantíssimo compreender a formação dos mitos em volta dele e as verdades a respeito do seu papel na Inconfidência Mineira. Depois de um século, com a Proclamação da República, quando este regime não tinha tanto apoio popular e foi criada uma ideologia que favorecesse a república, elegendo um personagem republicano, de origem humilde, militar, trabalhador e parte de um movimento a favor do regime. A partir disso, quadros de Tiradentes foram reproduzidos em jornais e livros para que a população o conhecesse.

Aprendemos que Tiradentes era um militar que participou do movimento separatista que foi denunciado à coroa portuguesa, condenando assim os seus participantes. Foi escolhido um deles para servir de exemplo para aqueles que participassem de movimentos conspiratórios contra Portugal. Joaquim foi morto em praça pública na antiga Vila Rica, atual Ouro Preto.

Muitos mitos envolvem o personagem. Há quem diga que ele era antiescravagista, mas na pauta das reivindicações dos inconfidentes não tinha nenhuma referência à abolição da escravatura. Muitas vezes reduzem a importância que ele teve na propagação do movimento, mas a verdade é que foi o único que fez propaganda aberta sobre a Inconfidência. Existem também algumas hipóteses levantadas sobre os motivos que causaram sua morte, que dizem, por exemplo, que ele morreu por ser mais pobre do movimento. Sabemos que ele era de classe mais baixa, mas não era pobre, além de que ele não foi o único condenado na participação como inconfidente, talvez o seu ofício que era mal visto na época pode ter pesado na sua condenação, mas outros também foram condenados pelo crime de lesa-majestade, de traição ao rei, mas não foram mortos. Ademais, ele não se entregou, mas foi entregue numa espécie de delação premiada de Joaquim Silvério dos Reis, do qual se considerava amigo. Ele denunciou os colegas da inconfidência para a coroa portuguesa para ter suas dívidas perdoadas.

É importante falar a respeito de uma manipulação histórica referente à criação de uma memória dentro das sociedades, a partir, por exemplo, da criação de mitos, o que desde cedo foi feito no Brasil, a respeito do descobrimento do Brasil, como a imagem criada sobre a independência ou no orgulho das tropas brasileiras na guerra do Paraguai. No período da transição da monarquia para república, o poder político percebeu a necessidade de criar no imaginário popular valores republicanos, fazendo isso a partir de símbolos e mitos.

Tiradentes não foi criado pela República, mas essa se apropriou de sua imagem enquanto figura forte para desconstruir o heroísmo de Dom Pedro I. O herói que precisava ser formado visava atingir emocionalmente o povo e para isso ele foi escolhido. Em volta dele, fora construída uma figura parecida com a de Jesus Cristo, a partir da qual foram construídos bustos, quadros, histórias e essa data comemorativa de 21 de abril, que se torna um feriado nacional.

A Inconfidência Mineira ainda divide as opiniões dos historiadores a respeito da sua importância na libertação do Brasil da coroa portuguesa. Entretanto, é perceptível que esse consenso acerca de Tiradentes e seu heroísmo estão diretamente ligados com a forma que ele foi morto, esquartejado, com seus membros espalhados pela cidade e sua cabeça espetada em praça pública, o que corroborou para dar a ele o título de mártir, sacrificado como Jesus Cristo na construção do imaginário social que perdura até hoje.

Ainda é possível encontrar diversas homenagens. Tido como "o homem que doou sua vida pela liberdade" – essa descrição mostra de que forma o poder republicano construiu essa crença. A aceitação dela se dá muito por conta da sociedade de formação católica, o que ajuda na associação entre o sacrifício cristão e aquele patriótico.

É de extrema relevância assimilar que ninguém nasce um herói, mas sim é construído a partir de uma causa que permite transformar determinado indivíduo em um personagem histórico que merece ser lembrado e homenageado. Como é o caso em questão, que se destaca não apenas por conta da sua efetiva participação na Inconfidência Mineira, mas pelo fato de ter sido o único a ser punido com a morte, dando a ele visibilidade histórica.

O pintor oficial do regime monárquico brasileiro, Pedro Américo, responsável pelo famoso quadro “O Grito do Ipiranga”, que perdeu seu cargo com o início da República, começou a produzir obras a respeito da Inconfidência para conquistar apoio do governo. Dentre elas se destacou a última chamada “Tiradentes Supliciado”, feita em 1893, que mais tarde recebeu o nome de “Tiradentes Esquartejado”, a qual expressa muito bem a relação criada entre ele e o sacrifício de Cristo. Pedro retratou um herói em pedaços, vítima da coroa portuguesa. Como Jesus, o herói inconfidente tinha um ideal, um traidor e um feriado em sua homenagem, sendo um exemplo de uma construção histórica bem sucedida. Referências:


DOMINGUES, Joelza Ester. "Tiradentes esquartejado”, de Pedro Américo: uma leitura crítica. Blog Ensinar História. 2015. Disponível em: https://ensinarhistoriajoelza.com.br/tiradentes-esquartejado-uma-leitura-critica/ . Acesso em: 15 abr. 2021.

 
 
 

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"Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão."

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