MALCOLM X – 21 de fevereiro de 1965
- RP História UNEB
- 21 de fev. de 2022
- 4 min de leitura
Ana Carolina Rodrigues
“Quem te ensinou a odiar a textura do seu cabelo?” Perguntava Malcolm X em um dos seus discursos mais importantes em maio de 1962. Quão atuais são os questionamentos do ativista negro estadunidense? Até os dias de hoje os cabelos e corpos negros vem sendo diminuídos, ridicularizados e excluídos. Em 2019, no Maranhão, um menino negro de apenas oito anos foi impedido de ser matriculado na escola por conta do seu cabelo: “mãezinha, com esse cabelo não pode” – foi o que a diretora disse à mãe após ver a criança. Mas ainda há quem diga que não existe no Brasil, não é?

Imagem encontrada no link: <https://lavrapalavra.com/2020/10/12/o-legado-militante-de-malcolm-x/>
Al Hajj Malik Al-Shabazz, Malcolm Little, ou, como ficou mais conhecido, Malcolm X, foi um ativista negro que nasceu em maio de 1925 no estado de Nebraska, Estados Unidos da América. O seu pai era um pastor batista que lutava em prol dos afro-americanos e por isso sua família foi perseguida por supremacistas brancos. Tentaram fugir e se mudaram para Michigan, onde tiveram sua casa queimada. O pai de Malcolm acabou morto atropelado em um acidente questionável e sua mãe desenvolveu problemas psiquiátricos e foi internada, fazendo com que seus filhos fossem entregues a orfanatos, morando com diversas famílias.
Quando criança, Malcolm era um bom aluno e sonhava em se tornar advogado, mas foi desencorajado após um professor afirmar que a profissão que almejava não era possível para um negro. Ainda hoje meninas e meninos negros são relegados a posições inferiores, inclusive no Brasil. Em 2016, alunos vaiaram um professor da Universidade Federal de Goiás após comentários racistas. Depois de expor um dos seus alunos, um docente afirmou que o rendimento daquela universidade decaiu por conta das cotas raciais.
O destino dos negros excluídos e muitas vezes impedidos de ocupar posições dignas na nossa sociedade por diversas vezes se assemelham. Em 2019, 75% das vítimas de assassinato no Brasil eram negras e representavam mais de 66% da população carcerária. Em 1946, Malcolm foi preso por roubo e receptação e na prisão entrou em contato com a “Nação do Islã”, grupo político e religioso, a partir do qual estudou o Alcorão. Em 1952, deixou a prisão, se converteu ao Islã e se dedicou a organização do Movimento dos Muçulmanos Negros, além de escrever no jornal da organização da qual passava a fazer parte. O sobrenome “Little” que sua família havia recebido no período da escravidão foi abandonado e substituído por “X”, como forma de rejeitar o nome escravo.
Transformou a mesquita do Harlem em um centro de movimento negro, onde inicialmente pregava um discurso radical contra brancos, afirmando que os negros deveriam criar uma nova nação dentro dos Estados Unidos para viverem separados da “América Branca”. Suas ideias se popularizaram nos EUA em 1959, quando fora veiculado um documentário pelos Estados Unidos chamado “Nação do Islã: o ódio que o ódio criou”. Falava sobre superioridade dos negros e afirmava que quando estivessem ameaçados, deveriam reagir com violência para se defenderem.
A popularização dos pensamentos de Malcolm não foi bem vista pela “Nação do Islã”, o que fez com que ele saísse da organização em 1964. É nesse momento que realiza viagens a Meca e pelo Continente Africano, reformulando suas ideias, abandonando a violência e caminhando para um discurso moderado e conciliatório, propondo a criação de uma identidade afro-americana.
Em 2021, 78% das vítimas mortas por armas de fogo no Brasil foram negros, sendo que no Nordeste a população negra foi quatro vezes mais vitimada do que os não negros. Malcolm foi morto há 57 anos atrás, em 21 de fevereiro de 1965, com 13 tiros durante um discurso no Harlem depois da sua saída da “Nação do Islã”, o que lhe trouxe novos inimigos. Ainda que as provas não tenham sido encontradas, se supõe o envolvimento da organização.

Imagem retirada de uma publicação feita no site do Estadão, disponível no link: <https://emais.estadao.com.br/noticias/moda-e-beleza,para-a-moda-o-novo-album-de-beyonce-e-o-anti-coachella,10000027960>
Em 2016 a cantora estadunidense Beyoncé lançou o álbum “Lemonade”, através do qual celebrou a vida de mulheres negras, em especial aquelas cujos filhos foram mortos pela polícia dos EUA. Junto ao álbum, ela lançou um documentário no qual cita Malcolm X: “A pessoa mais desrespeitada na América é a mulher negra. A pessoa mais desprotegida na América é a mulher negra. A pessoa mais negligenciada na América é a mulher negra.”. É possível enxergar essa discussão nos pensamentos da intelectual e feminista brasileira Lélia González que enxergava a forma como a mulher negra é relegada ao lugar inferior dentro desse sistema patriarcal racista, o que concorda com o posicionamento de Ângela Davis, quando essa afirma que para o feminismo ser relevante, ele precisa ser antirracista.

Imagem retirada de uma postagem do dia 9 de outubro de 2020 do perfil do Facebook “Think Olga”, disponível no link: <https://web.facebook.com/thinkolga/posts/2026101507525360/?_rdc=1&_rdr>.
“Quem te ensinou a odiar a cor da sua pele de tal forma que você passa alvejante para ficar como o homem branco? Quem te ensinou a odiar a forma do nariz e a forma dos seus lábios? Quem te ensinou a se odiar do topo da cabeça para a sola dos pés? Quem te ensinou a odiar pessoas que são como você? Quem te ensinou a odiar a raça que você pertence, tanto assim que você não quer estar entre outros como você?”





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