Sincretismo Religioso e o 04 de Dezembro
- RP História UNEB
- 4 de dez. de 2020
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Fotografia extraída do site: https://bahia24horas.com.br/festa-de-santa-barbara-reune-religiosos-em-salvador-nesta/ (acesso em 04/12/2020)
Hoje, 04/12, é considerado tanto o Dia de Santa Bárbara, quanto o Dia de Iansã para o sincretismo religioso. Portanto, em comemoração a essa data, quatro estudantes da Residência Pedagógica: Raiana Santana, Rafaela Condurú, Ialle Azevedo e Larissa Alves entrevistaram uma colega do curso de História para entendermos mais acerca do assunto!
Entrevistada: Me chamo Katarina Pinto, sou estudante da Licenciatura em História pela Estadual da Bahia, Mona Nkisse do Nzo Mungongo Lembêuaji Junsara, educadora e pesquisadora.
1- Como você, sendo do candomblé e estudante de História, enxerga o sincretismo religioso?
Karina: O “sincretismo religioso” foi e é esse movimento que nós aprendemos durante nossa vida que houve por parte da população negra e indígena como forma de resistência para continuarem cultuando seus deuses, mas de uma forma que os senhores não percebessem, já que estes eram católicos e criminalizavam os cultos as religiões de matriz africana. Porém, após fazer algumas pesquisas e na minha própria vivência enquanto Mona Nkisse, entendo que não era bem assim o que ocorria. A fé pelos santos católicos realmente se fundiram e passaram a fazer parte das preces e da fé de negros e indígenas, mas quando estavam louvando o sagrado católico, estes não necessariamente pensavam nos Orixás. Nkisses e Voduns, bem como nos rituais e candomblé, não havia uma menção aos santos católicos - com a ressalva do culto aos caboclos, cultos esses que ainda hoje contam com a presença de elementos da Igreja muito forte. Um ótimo exemplo disso é a confraria afro-católica da Irmandade da Boa Morte, localizada em Cachoeira, onde as senhoras que constituem a Irmandade, em sua maioria, são candomblecistas, mas também louvam ao sagrado católico, separadamente.
Logo, penso no “Sincretismo Religioso” como algo fantasioso ou mais um arquétipo da nossa tão falada “Democracia Racial” brasileira, já que uma das coisas que pretendia se representar era a paridade entre raças, etnias e crenças, quando na realidade as coisas sempre foram bem distinguidas pelos seus praticantes.
2- O que é o dia 4 de dezembro pra você? Qual a significância da data e como ela é celebrada na sua religião?
Karina: Diferente do dia de Yemanjá no 2 de fevereiro, onde a festa é realmente pertencente a uma Orixá, o 4 de dezembro se trata de uma festa católica, direcionada a Santa Bárbara. No entanto, como em várias cidades o país, e em Salvador não seria diferente, as religiões de matriz africana acabaram aproveitando essas celebrações católicas para realizarem em seus terreiros cultos e celebrações relacionados aos orixás que foram associados a esses santos católicos no decorrer dos séculos. Como Santa Bárbara foi relacionada a Yansã (ou Oyá), a senhora das tempestades, ventanias e a responsável por guiar os espíritos dos falecidos para o Orum (“céu”), celebra-se essa data com as comidas relacionadas a essa Orixá: acarajé, caruru e pratos com bastante dendê.
Não podemos negar que há o que gosto de chamar de catolicismo popular aqui nesse pedaço de terra tão singular quanto é Salvador. Então até as igrejas católicas e o corpo de bombeiros (que tem Santa Bárbara como patrona protetora) ofertam carurus nessa data. Para mim, o dia 4 e dezembro é o dia que nós celebramos Oyá, Bamburucema e Avissan assim como a celebramos todas as quartas-feiras.
3- Como você enxerga a questão do sincretismo cultural em relação ao fato de católicos e candomblecistas comemorarem a mesma data? Quais modos de violência histórica você identifica nessa relação?
Karina: Como respondido anteriormente, nós, candomblecistas, comemoramos o dia 4 assim como comemoramos a energia das ventanias todas as quartas-feiras, com muito acarajé e dendê. Mas também penso nesse “sincretismo” como um dos artifícios operados pelo poder branco e católico para defender uma espécie de democracia racial e paz entre os povos que nunca existiu aqui, mas que sempre foi propagada nos folhetins principalmente o pós-abolição e o início da república. Um dos maiores agenciadores dessa violência - violência porque negar que o poder militar invadia os terreiros de candomblé e prendiam os atabaques para que não houvesse mais as celebrações é interpretado por mim como violação de direito básico - foi o Jornal A Tarde. Como o Bakulo (Bem lembrado) Jaime Sodré trouxe brilhantemente em sua obra “Da diabolização à divinização: a criação do senso comum” (2010), esse periódico deixa de atacar os cultos de matriz africana de forma escancarada para mostrar suas belezas, numa tentativa de aumentar o turismo cultural para a “cidade da Bahia”, como era chamada Salvador.
Então pode-se concluir que houve aí uma tentativa do poder público de mascarar seus racismos e preconceitos (vistos até hoje) para monetizar a cultura e um povo, folclorizando-a, mas que ainda deixa escapar suas visões coloniais. A exemplo disso, está a festa de Yemanjá, que foi chamada pelas propagandas do município no último ano e “Festa do 2 e fevereiro”, desassociando a festa de seu símbolo principal, que é a orixá Yemanjá.





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