A escrita de cartas por estudantes do ensino fundamental como produção histórica.
- RP História UNEB
- 18 de dez. de 2019
- 3 min de leitura
Ao exercer a docência pensando numa metodologia para o Ensino de História onde os educandos se sintam como sujeitos históricos, construtores da História e das práticas de seu cotidiano, bem como traçando estratégias para que eles também pudessem se sentir pertencentes às histórias trabalhadas em sala de aula, presentes no livro didático e postas sempre como algo distante de nossa realidade, e não como fatores que ainda refletem na forma em que a sociedade se estrutura, foram propostas atividades em que os estudantes produzissem “documentos históricos” de forma guiada. O principal objetivo era o de recuperar o estudante como sujeito produtor da História, e não como mero espectador de algo já determinado, produzido pelos heroicos personagens dos livros didáticos.
Ao trabalhar com a turma do 8º ano do ensino fundamental do Colégio da Polícia Militar – Dendezeiros acerca dos assuntos que envolviam as revoltas ocorridas no período regencial (Malês, Sabinada, Cabanagem, etc.), e pensando numa proposta didática onde pudesse trabalhar a construção dos documentos históricos, pedi que os e as estudantes produzissem cartas onde se colocassem no local e na data de uma das revoltas, que deveria ser escolhida por eles mesmo, relatando para uma outra pessoa o que estava ocorrendo, as motivações das manifestações e como estava o cenário local. Antes de aplicar a atividade, houve aulas expositivas que falaram sobre o que foram as revoltas, o que cada uma delas pretendiam, no que divergiam e no que eram semelhantes.
O resultado foi o melhor possível. Os e as estudantes se colocaram no local e na data da revolta escolhida, muitas vezes se colocavam, inclusive, no lugar das lideranças da revoltas, como foi o caso da estudante que escreveu a carta se passando por Luiza Mahin, mulher negra aguerrida que teve papel importante na Revolta dos Malês (1835) e na Sabinada (1837-1838). Nas cartas, foram encontrados ricos detalhes e importantes reflexões feitas pelos estudantes. Falaram pontualmente sobre as movimentações que estavam ocorrendo nas cidades, qual era o intuito e quem protagonizava essas revoltas. Valorizaram as pautas dos revoltosos, estando sempre ao lado daqueles que lutavam, pois perceberam as injustiças cometidas pelos regentes acima do povo. As revoltas mais escolhidas foram a dos Malês e a Sabinada, pois, segundo os próprios estudantes, por terem acontecido, ambas, em território baiano, foram as que eles mais se identificaram.
A partir desse trabalho, as noções de raça, gênero e classe social foram trabalhados, bem como foram discutidas as relações de poder estabelecidas na época entre negros e brancos. Foram muito presentes nos documentos produzidos a noção de identidade e de igualdade, defendidas pelos meninos e meninas de forma brilhante. Através de trabalhos aplicados como este, percebe-se que aprender história é discutir evidências, levantar hipóteses, dialogar com os sujeitos, os tempos e espaços históricos. “É olhar para o outro em tempo e espaços diversos” (BARCA, 2009). Para além disso, exercícios de produção de documentos por parte de educandos não têm como objetivo primaz transformá-los em historiadores, mas ensiná-los a pensar historicamente.
Algumas das cartas estão retratadas abaixo:

Imagem 1: carta da estudante Naila na Revolta dos Malês/ Insurreição Nagô (1835)

Imagem 2: carta da estudante Fernanda na Revolta dos Malês/ Insurreição Nagô (1835)

Imagem 3: carta da estudante Fernanda na Revolta dos Malês/ Insurreição Nagô (1835)

Imagem 4: carta da estudante Larissa na Revolta dos Malês/ Insurreição Nagô (1835)
Redação: Katarina Pinto Fontes Dantas Martins
Bolsista do Programa de Residência Pedagógica - CAPES, exercendo regência no Colégio da Polícia Militar – Dendezeiros.





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